domingo, fevereiro 01, 2015

A viagem sonora de José Gonzalez - a voz do folk



Esse cara faz com que eu perca o maior dos meus medos: o medo da solidão. Porque escutar o som de José Gonzalez é viajar para dentro de mim mesma. Benefícios psíquicos à parte, José Gonzalez é mesmo uma viagem sonora.

Sempre conheço preciosidades musicais no maior dos acasos. Com ele não foi diferente. Foi ao passar na fase do jogo Red Dead Redemption, lá num tardio 2012, onde tive a felicidade de escutar Far Away pela primeira vez, cavalgando nos campos de Perdido, próximo ao México. Tudo pelo XBOX, claro. Mas foi graças ao jogo que pude conhecer o som do argentino barbudo e narigudo criado na Suécia, que para mim não tocava um estilo único, apenas, mas um estilo musical do qual eu nunca tinha me identificado antes. Um som orgânico, de violão e voz limpos. Qual a magia em escutar José Gonzalez?



Ouvir seus dois primeiros álbuns, Venner e In Our Nature, é, em um primeiro momento, ouvir músicas que são iguais. Mesmo ritmo, mesma sensação. Embora nada se compare a Teardrop e Far Away (a verdadeira música Western), todas as canções são igualmente caras. Cada música é um respiro, uma pausa na velocidade do mundo.

A primeira impressão é um ruído acústico simplificado, cru. No entanto, tudo é proposital para uma estética de natureza rústica. Ouvir José Gonzalez não é apenas algo para silenciar nossa mente; ouvir José Gonzalez é ouvir o próprio silêncio.


Descobri então com José Gonzalez não só o meu amor pelo Western, mas o valor do folk. Mas o que seria a música folk? Não seria apenas uma letra melódica, nem uma referência meramente folclórica de determinada região; mas precisamente o blues à sua maneira; o uso dos instrumentos certos, a melancolia não necessariamente triste, mas a melancolia existente da vida real. Um violão, uma gaita, uma harmonia. O folk é a essência musical.

Junip

Não fosse suficiente a descoberta, encontrei Junip, o projeto paralelo de José Gonzalez com mais dois músicos, Tobias Winterkorn e Elias Araya. Com mais artifícios, Junip não deixa a desejar. A formação é de 1998, antes de Gonzalez encarar o voo solo em 2003, mas recentemente eles realizaram grandes êxitos dentro do folk-rock com os álbuns Fields e Junip. Senão melhores que o próprio trabalho de Gonzalez, a banda Junip foi o maior salto na carreira do sueco, que trouxe obras-primas como Line Of Fire, a música que anunciou a última temporada de Breaking Bad (talvez a música-essência da série mais premiada dos últimos tempos). Line Of Fire é a última prova. Não só representa a guerra interna do homem na letra em si, como também no ritmo acelerado dos violões e na voz crua e consoante de Gonzalez.


Put to the test
Would you step back from the line of fire?
Hold everything back
All emotions set aside it

Quando eu acreditava que José Gonzalez era apenas um músico para poucos ouvidos, eu me deparo com seu nome na trilha sonora de A Vida Secreta de Walter Mitty, de 2013, o que não poderia ser mais certeiro, tendo em vista o roteiro. Um homem comum, interpretado por Ben Stiller, com uma vida medíocre, que nunca tomou uma iniciativa relevante capaz de mudar a configuração de seu próprio mundo. Quem já não passou pela hora H? Aquele momento minutos antes de chutar o balde, de questionar a vida, de dar a volta por cima. E Mitty foi e fez o seu. Com José Gonzalez tocando ao fundo, por certo.



O retorno

E a pertinência de Gonzalez e seu violão também percorreu o mundo. Suas capas são caracterizadas por ilustrações minimalistas e seus clipes hoje traçam um perfil próprio, com rostos e caricaturas igualmente limpas, transparentes, expostas à sua realidade, sem resquícios, sem filtros.



Depois de ter me convencido de uma vez por todas no fim de 2014 que aquele seria o artista da minha pequena e criteriosa lista de artistas favoritos e atemporais, José Gonzalez retoma sua carreira solo no momento certo, trazendo Vestiges & Claws, que ainda não foi lançado mas já trouxe boas surpresas, como a oportuna Every Age e a gloriosa Leaf Off/The Cave, uma celebração musical que só sugere o quão tem fundamento essa ansiedade toda para o dia 17 de fevereiro, data de estreia do novo álbum. O folk chegou pra ficar - na voz dele.

Adendo:

Pensou que o argentino-sueco não teria nenhuma ligaçãozinha com o Brasil? Além de ter feito um show (quando era menos requisitado, claro) em 2008, parece que sua banda Junip se interessou muito pela cultura daqui, tanto que fez uma versão caprichosa e bem à sua maneira, do sonzinho malandro do Jorge do Ben Jor, porque um pouquinho de groove é preciso!




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