sexta-feira, março 27, 2015

Se a vida fosse um dislike


da série cenas da vida de uma criança que se tornam emblemáticas na vida adulta

eu devia estar no pré, no jardim, na transição de um pro outro, algo assim. aquele primeiro enfrentamento diante da vida: a turminha foi dividida em grupos. taí uma situação cruel desse mundo. separar pessoas que estavam tão bem juntas em espaços diferentes. um grupinho ia ficar no pátio, cheio de brinquedos, piscina, sol, e o outro grupinho ficaria dentro da escolinha, janela com grades, salão entediante, escuro, silencioso. adivinha onde eu fiquei?


o pior não era ter ido para o lugar mais triste e mais chato da pequena escola. era terem me desligado dos meus, minha melhor amiguinha, meu ex-futuro-boy que ainda tinha dente de leite, enfim, eles estavam juntos, se divertindo, naquele pátio incrível cheio de coisas legais pra fazer, nunca mais se lembrariam que eu existia.

meu fundo do poço começou muito cedo. minha primeira decepção com a vida, principalmente com as tias do colégio. eu nunca vou esquecer que me impediram de estar no gira-gira com as crianças engraçadas para me deixarem ali, só espiando, junto com as crianças estranhas, como se fosse um castigo que eu levei sem ter aprontado nada.

era o mundo me impedindo de ser escolhida para um final feliz. de ser sorteada nos prêmios da vida, de ter um destino amigável. quem diria que aquela cena seria apenas uma mera prévia do que estaria por vir ao longo de toda a minha vida…

não ser escolhida para entrar no time de vôlei do colegial, não ser selecionada para entrar numa grande empresa, não ser correspondida por uma grande paixão… 

quem dera toda grande decepção fosse não passar uma tarde num pátio pequeno com os amiguinhos bobos do colégio. mas se isso fosse um modelo representativo de algum acontecimento maior, como uma maquete, um presságio ou só uma “palhinha”, eu diria que essa seleção feita pelas tias da escolinha não foi nada menos que uma preparação para a minha ruína ao saber que amigos meus ficaram amigos de outros amigos meus e se encontraram numa festa que eu não estava. ou que prepararam uma festa e não me convidaram. e estariam se fartando de risos, flertes, bebidas, danças, conversas e arrastões do qual eu não estaria participando.

não, isso não se sucedeu. não que eu saiba. mas só de imaginar a possibilidade disso acontecer me deixa em destroços. destroços morais de uma mulher insegura, que nada mais é que uma menina deslumbrada, apegada e insatisfeita atrás das grades de uma janela, reclamando amor e reclamando posses. mas eu me contento hoje com as frustrações, aprendi a viver com elas, sigo levando “nãos” do mundo porque distribuo muitos nãos por aí também.

e ao reconhecer meu lado possessivo, tão em contraponto com a minha independência, percebo também que esses nãos da vida também são grandes prêmios de experiência e formação de maturidade. reconheço que esses sentimentos pequenos não merecem vazão e que só com esses nãos conseguimos ir além, em querer mais, em encontrar novos caminhos, novas oportunidades, novas escolhas, novas e boas surpresas. a surpresa de descobrir o que realmente nos preenche, e não um mero pátio com alguns brinquedos.

Ilustrações: Alexandra Levasseur

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