domingo, abril 12, 2015

Elastic Heart - o clipe conceitual de Sia


À primeira vista, um videoclipe bizarro. Mas quem gosta de absorver uma história, interpretar, ao menos tentar entender, sabe que assistir apenas uma vez não basta. E são clipes como Elastic Heart que acabam se tornando os mais interessantes.

No meu caso, confesso, só cliquei no vídeo por causa do maluco do Shia LaBeouf. Não sabia nem quem era Sia. Não sabia nem mesmo se a criança do vídeo se tratava de uma menina ou uma criatura andrógina nos primeiros minutos. Assisti sem entender nada, mas me deixei levar.

Nem assisti a Chandelier - outro clipe de Sia que trazia a mesma personagem - resolvi ficar só nesse vídeo mesmo. A menina e o homem presos numa gaiola gigante, com os corpos cobertos por peças de cor nude, dançando um balé com gestos e expressões peculiares e um final igualmente estranho num primeiro olhar. Assisti mais umas duas vezes, com poucas conclusões, mas alguma interpretação.

Busquei algumas opiniões e vi que a performance foi interpretada por muitos como uma apologia à pedofilia, reação que não me surpreende, embora eu não tenha enxergado dessa forma.

Pela atuação de ambos e pela coreografia executada, todas as cenas de luta e de trocas de carícias foram realizadas de forma puramente artística. A cantora Sia já explicou que não se trata em nenhuma hipótese de pedofilia e lamenta quem tenha visto o clipe dessa maneira. Em entrevista, ela afirmou que escolheu o ator Shia LaBeouf e a exímia dançarina Maddie Ziegler, de 12 anos, porque eles representam a própria cantora com seus lados conflitantes de personalidade. Daí seu “coração elástico”? #quemnãoseindentifica

E o contexto se traduz em arte, mesmo. O clipe, segundo os diretores, seria uma recriação da obra do alemão Joseph Beys, que em 1974 realizou uma performance chamada Eu Amo a América e a América me Ama, onde o artista ficou três dias trancado numa jaula com um coiote selvagem.


Isso com algumas pitadas de sua bagagem emocional - o pai de Sia sofria de distúrbios mentais e muitos interpretam como se ela tentasse ajudá-lo a se libertar de sua doença. Daí a explicação também dos momentos de carinho, brincadeira e, por fim, tragédia pelos quais os personagens passam.

A minha interpretação também condiz com a de muita gente - que o clipe se trata de uma metáfora, uma alusão à infância de todos nós. Segue um texto que encontrei que descreve exatamente como vejo:

A criança é o espírito livre. O adulto é um coração pesado. A gaiola é o corpo. Eles estão em uma constante luta um com o outro, apesar de se amarem muito. O espírito livre está frustrado com o coração pesado e tenta levá-lo com ele para a liberdade, o coração pesado tenta manter o espírito livre dentro. No final, o espírito livre tenta desesperadamente tirar o coração pesado com ele, mas é muito pesado, e não consegue. O coração pesado percebe que ele tem que deixar o espírito livre ir, mas isso o deprime profundamente. (Leslie Whistley)



Uma interpretação ao invés de anular a outra, acaba complementando. É como essa fosse na verdade a relação da Sia criança lutando pelo amor do pai na infância.

É natural essas várias interpretações, é assim que são compostas as obras. No fim, assistir o clipe de Elastic Heart é como assistir uma peça ou dança no teatro. Taí uma coisa diferente em clipes feito com um recurso artístico tão tradicional.

E sim, faltou falar de como a música é tão boa quanto o clipe - a voz da cantora se destaca no meio de tantas novas vozes do cenário pop atual - grudou de vez na minha playlist. E olha que faz tempo que não me empolgo tanto com uma música pop que toca atualmente nas rádios.

Ah, pra quem não sabe, Elastic Heart é a segunda parte de sua trilogia de clipes do álbum 1000 Forms Of Fear. Ou seja, o terceiro deve sair muito em breve!

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