sábado, junho 20, 2015

Buenos Aires - 'la durona'


"Jamais me passou pela cabeça escrever sobre isso. Mas a decisão se tornou completa naquela noite, quando eu assistia à expressão dos dançarinos no show de tango. Talvez aquele tenha sido o ponto alto da viagem e da inspiração. Todas as emoções que senti ao estar naquela terra pareciam embutidas ali, em cena. Minha primeira viagem, todas as expectativas na bagagem, e eu pude aprender muito com ela, mesmo que por três dias.

Uma das primeiras e grandes impressões que eu tive não foi tão feliz. Sempre conheci Buenos Aires como uma cidade linda que eu tive o prazer de nascer, mas que eu não conhecia de fato. Acreditava que esse lugar encantado me acolheria de braços abertos, pois lá eu nasci, pressupondo que com tudo me identificaria. Mas aos poucos percebi que eu andava por aquelas ruas como se fosse uma intrusa. Não, eu não lá pertencia."


Esse foram os primeiros parágrafos de um texto que escrevi em 2007, durante minha curta estada em família por Buenos Aires, cidade em que eu nasci e de onde eu saí com dois anos de idade. Graças a um concurso cultural que participei pude voltar, pela primeira vez, vinte anos depois, e registrei todas as perspectivas em quatro folhas de papel.

Naquela época - conto no texto - conheci um ruivo de cabelos compridos, bonito, rico, que me deu um belo chapéu. Infelizmente não me refiro ao acessório.

tão delicada e tão cheia de espinhos


Aquela foi a primeira vez que me senti desprezada. Tola. Despejei minhas mágoas na ponta do lápis e passei a contar minha patética história como se fosse um melodrama italiano. Mal imaginaria que a decepção viria a cavalo e com golpes mortais só na terceira viagem.

Recebi toda a rejeição e desrespeito da forma mais estúpida possível. Desabei. Mas me levantei. Todavia, independentemente dos meus imprósperos relacionamentos, o tratamento portenho em geral nunca foi lá muito bom. As pessoas, as ruas, os muros, os prédios, os shoppings, as esquinas, todos me maltratavam. O frio feria minha pele, coçava meus olhos, queimava minha boca. A noite me isolava. Os parques dos dias nublados também. Avenidas e estabelecimentos me amedrontavam. A capital adorava me abandonar por seus territórios. Os raros que me percebiam, tentavam, inutilmente, fazer algo para que eu ficasse bem. Foi assim, depois de várias tentativas de querer me sentir bem, que tirei minhas próprias (mesmo que injustas, mas não precipitadas) conclusões. Buenos Aires nunca me amou.

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